quinta-feira, 19 de junho de 2008

Hora de mudar de Faixa

Num dia de muito stress no trabalho, voltei para casa e fui direto desopilar na frente do computador. Quando a sua vida pessoal anda de cabeça pra baixo, não existe nada mais terapêutico que botar em dia a sua vida eletrônica. Aproveitei essa imersão virtual para conversar com amigos antigos no chat, baixar a nova versão do MSN BETA, fuçar a vida alheia no site de relacionamento, praticar o feng-shui na caixa de entrada e quebrar todas as mensagens “correntes” que chegaram ao meu email, sempre embalado por uma boa trilha sonora selecionada especialmente pelo windows media player só para criar o clima. Nesse dia atípico, a primeira faixa escolhida de maneira arbitrária foi um clássico dos Stones “You can’t always get what you want”. Mesmo no mundo em que tudo não passa de complexas equações binárias, nesse momento, a repetição do “1” e do “0” exigiu que ao invés de um afastamento da realidade, eu fizesse uma séria reflexão sobre o universo real que, igual era relatado pelo filósofo Jagger, não ia bem do jeito que eu gostaria.

Não era só o trabalho que não estava legal. Os amigos com quem você conta todas as horas pareciam ter se distanciado, pressupondo que você precisa de um descanso em absoluto ostracismo e por isso não lhe convidavam, temporariamente, para reuniões em conjunto. Motivo alegado: “Ele tá estressado, companheiro. Melhor deixar quieto”. A vida amorosa também não vai de vento em polpa. Aquela morena com quem você trocou telefone lá na festinha da moeda não liga faz uma semana. Será que ela pegou meu número errado? Quando ligo, quem atende é um cara que jura que fala de uma padaria. Prefiro achar que ela só não quer falar comigo agora. Quem sabe depois? “YOU CAN’T AAALWAYS GET WHAT YOU WAAAAAANT…”
Enquanto Mick Jagger berrava no meu ouvido dizendo que todos deveriam cantar em coro que nem sempre a gente consegue o que quer como uma espécie de mantra para ver se a letra da música e o pensamento andavam na mesma direção, fui fazendo um paralelo dos prospectos que tinha da minha vida futura o e meu nada ficcional estado atual. Lembrei-me de quando era mais novo, queria ter uma profissão a qual eu pudesse ganhar bastante dinheiro e ter um escritório só meu. Como no meu mundo imaginário o vocábulo “restrição” não tinha definição no pai dos burros, eu também queria ganhar na loteria, namorar a Nicole Kidman, ser um personagem do seriado Friends quando acabasse a faculdade, ter o carro do ano e uma família igual a do comercial de margarina. Tudo fugia, e muito, da vida que era visível aos olhos. Depois do tombo que a filosofia Jaggeriana me proporcionou ainda faltava a lição de moral, de praxe em livros de alto ajuda, que veio na última linha do último verso “You Get What You Need”. Foi o estopim para achar que no meio de alguma década de vida eu havia jogado chiclete mascado na cruz e até hoje carrego o fardo por tamanha blasfêmia.
Aceitar as vias de fato não é fácil. Mas às vezes é melhor ter uma constatação real que viver com a cabeça num mundo virtual que talvez nunca se concretize. Mas se Mick Jagger acha que no meio do caminho a gente não acha o que quer e sim o que precisa, é bom ter cuidado ao levar a afirmação ao pé da letra. Depois de absorvido os ensinamentos de Lorde Jagger para elevação espiritual e desprendimento metafísico, essa é a hora de mudar a faixa, ou melhor, cambiar da linha pensamento da determinista rolling stoniana para positiva e evolucionista do U2. Afinal, ainda não estava pronto para me desfazer do meu discurso de aceitação do Oscar nem do Nobel da Paz. Pois, segundo dizem os seguidores da filosofia Bonista, você apenas ainda não encontrou aquilo que você procura.

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